6 de mai de 2008

sweet Jane


Não agüentava mais. Fazia um ano desde que comera alguém. Um ano! Poderia enlouquecer desse jeito. Caminhava na rua olhando as mulheres, e seus pés. Muitas vezes mais os pés do que as próprias mulheres. Pensava em namorar apenas para ter uma foda garantida numa quinta feira às quatro e meia da tarde.

Como era tímido de mais para falar com as mulheres que se apaixonara nas paradas dos ônibus, recorreu à prostituição. Abriu o jornal popular de quinta-feira, classificados, massagem e acompanhantes. Anotou uns oito telefones, visitou umas cinco páginas na internet, gozou. Loiras, morenas, ruivas, asiáticas, negras, pés tamanho 34, 35, 36, magras, pequenas, peitudas, depiladas, porém, caras. O pouco dinheiro que recebia de seus pais para o estudo gastava em garrafas baratas de um vinho qualquer. Quanto mais bagaceiro, mais barato e mais garrafas poderia comprar.

Lembrou de uma amiga que conhecera na nova cidade. Apaixonaram-se no primeiro mês e foram para a cama. Brochou e mentiu que amava outra. Ainda hoje mente que ama. Brigaram. Ela queria transar e ele não conseguia, queria, mas não conseguia.

Então lembrou de outra amiga que havia vindo em sua casa um ano atrás. Porém, ela morava em outra cidade e havia começado a namorar um conhecido seu. Não que isso fosse um problema, tanto pra ele quanto pra ela. Mas não adiantava, ela só voltaria em nove dias e ele precisava pra agora. Além do mais, ela não tinha pés tão bonitos. Nada bonitos pra falar a verdade. Daqueles gordos e pequenos que parecem pequenas bolas achatadas. Pintava as unhas de vermelho, o que já significava muita coisa. E os dedos, os dedos eram os piores possíveis. O dedão era redondo de mais e a unha parecia se perder no meio de tanta carne. A coitada era uma ilha no meio daquele dedo. E se o dedão já é feio, o resto não precisa nem olhar.

Já sabia de cara quando um pé prestava ou não. Nas tantas tardes em que se enfiava num ônibus só para ver alguns dedinhos e se apaixonar um pouco, percebeu que o pé tem muito a ver com a mão. Quando batia o olho numa garota que o interessava, se não estava de chinelos, a primeira coisa era olhar a mão, o formato dos dedos da mão, do dedão principalmente, já era possível perceber como era o pé. Já sabia se aquela atração valeria a pena.

Mas voltando.

A amiga que mentia que amava viria à cidade. Mas com ela não era fácil, além da amizade dela por ele, ela era tudo o que ele sempre quis. Morena. Baixinha, Magra. Seis medianos. Bunda igual. Pés lindos. Lindos! Tamanho perfeito – 35/36 – nem gordo nem muito magro, dedos do tamanho exato. A unha milimetricamente desenhada para aquele pé, e, quase nunca pintadas de vermelho. Mas ela sempre fora sua mentira, convidá-la para foder não era fácil.

A amiga que tinha brigado já havia esquecido daquela noite e voltara a falar com ele. Freqüentemente ia a sua casa para beber, escutar uns discos e fumar sua maconha, mas nunca para ser jogada novamente na cama. Queria matar o tempo, nada de sexo. E como era tímido nunca tentou beijá-la novamente.

Não agüentava mais. As mulheres que se apaixonava ou eram amigas, ou tinham pés feios. As prostitutas que fora atrás, até tinham belos pés, mas não queriam diminuir o preço. As garotas das ruas nunca o olhavam, pelo menos não reparava, estava ocupado de mais com a cabeça sempre voltada para baixo.

Restou-lhe abrir uma garrafa de vinho e se masturbar enquanto sua amiga de pés feios não voltava à cidade.

7 comentários:

Vazio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vazio disse...

era um cara que precisava de foda mas já tava fodido

Carolina Marquis disse...

Muito bom, hein!
Tem que se investir nas paixões anônimas e gratuitas - elas rendem boas histórias.

brunob disse...

anônimas, gratuitas e altruístas!

Alice disse...

anônimas não
nem gratuitas, me passa a impressão de egoismo,
logo apenas altruistas!!

meus pés são lindos!

Alice disse...

anônimas não
nem gratuitas, me passa a impressão de egoismo,
logo, apenas altruistas!!

meus pés são lindos!

Alice Castiel disse...

falto uma virgula no primeiro!